Os países latino-americanos passaram por situações parecidas. Entre o período de transição do fim da colonização até atingir a “democracia”, a trajetória seguida foi de encontro à interposição militar ao modelo de governo aplicado e sua alocação no poder. Assim, na década de 1950 na Venezuela, chegava ao poder, depois de um golpe, o general Marcos Peréz Jiménez.
O ano era 1952 e o cenário instável na Europa e no Oriente alavancou a Venezuela à grande potência petrolífera da época. Os valores desta atividade eram astronômicos e, repassados ao governo, eram aplicados em obras de infra-estrutura do país. Até o final do governo de Jiménez, em 1958, duplicou-se a extensão da malha rodoviária da Venezuela e o país se tornou um canteiro de obras com a construção de prédios, complexos industriais de base, monumentos, além de melhorias na quantidade de armamentos e da estrutura militar.
Em encontro ao período ditatorial do Brasil, a ordem era construir - e a menina dos olhos dos venezuelanos era a capital, Caracas.
Caracas era sinônimo de progresso e o mercado venezuelano atraia a atenção de grandes empresas. Se pontes eram construídas e existia combustível em grande escala, a situação era muito interessante para as marcas de automóveis e a Mercedes-Benz foi a primeira a perceber isso e ter força suficiente para fazer um grande evento na cidade.
No início de 1955 a marca alemã já tinha dominado a Europa através do temor que impunha na Fórmula 1, principalmente através de Juan Manuel Fangio. O piloto sulamericano era um grande incetivador do esporte a motor na continente e, portanto, a figura mais adequada para promover uma corrida de esportivos na Venezuela.
Entretanto, após o triste episódio de Le Mans e a confirmação do título de Fangio na Fórmula 1, a Mercedes abortou o seu programa esportivo e sua participação na Venezuela foi vetada. Mesmo assim, a empresa não perdeu a chance de promoção e um modelo esteve à disposição para exibição antes da prova. O presidente Peréz Jiménez e Fangio passearam pelo circuito montado próximo à praça Los Proceres em um carro da marca.
Para confirmar a participação na prova - um grande orgulho para Fangio -, este recorreu à sua ótima relação com a Maserati. No dia 6 de novembro estava tudo preparado e o circuito, com longas retas e poucas curvas, atraiu pilotos tarimbados, como Luigi Villoresi, Alfonso de Portago, Robert Manzon, Eugenio Castellotti, Phil Hill, Harry Schell, Emmanuel de Graffenried, Luigi Musso, Maria-Teresa de Filippis, Louis Chiron e os brasileiros Chico Landi e Hermano da Silva Ramos.
Na corrida, Fangio soube poupar equipamento para vencer tranquilamente os oponentes e as condições ambientais, como o forte calor e a altitude da capital venezuelana. O reencontro de Jiménez com o piloto argentino aconteceu no pódio, durante a entrega do troféu.
Foi o primeiro passo de abertura da Venezuela para o automobilismo mundial e os frutos viriam quatro anos mais tarde com um piloto na Fórmula 1. Mas antes, o general Marco Peréz Jiménez tomaria um golpe de estado e deixaria o poder. Seu estilo de governo era pragmático, nacionalista ao extremo e com o poder concentrado em demasia em suas mãos. Segundo o antropólogo Fernando Coronil, Pérez Jiménez tratava seus aliados locais não como parceiros na formulação de políticas, mas como partidários subservientes. Suas políticas não admitiam discussão, negociação ou acordos. Pérez Jiménez procurou governar sozinho.
E assim, terminou sozinho.

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